domingo, 22 de fevereiro de 2009

Esse bloco é o meu país?











Todo ano, o carnaval de Salvador atrai milhões de turistas para a cidade. O discurso de paraíso na terra articulado pela Bahiatursa nessa época somado aos trabalhos constantes de divulgação realizado pelo clã da axé music em micaretas e shows podem explicar a grande massa de foliões que chega aqui com os olhinhos sedentos pelo pote de outro atrás do arco íris, que pode vir em forma de abadá (s) e/ou camarote (s).

Nota-se também, que a cada ano, quem tem se preparado muito para estes sete dias (oficiais) de folia momesca, é a imprensa. Esta, por sua vez, passa a utilizar todos os seus recursos (vinhetas, jingles,reportagens especiais e etc.)para reforçar a Bahia e a baianidade com todos os seus estereótipos e clichês.

Sei que posso parecer ingênuo e idealista, pois, afinal de contas,o nosso carnaval vive um processo contínuo de "sofisticação" comercial em todos os sentidos. Hoje, sem sombra de dúvidas, o mercado se sobressai a festa, e não o contrário.

Para chegar a essa conclusão não precisa muito esforço. Basta assistir a uma entrevista com qualquer "estrela" da música baiana, para perceber que as vendagens, os investimentos, os custos, os patrocinadores e as fofocas ocupam 90% do roll de preocupações destes com o carnaval. Nem de longe, as palavras de muito dos bambambans do axé revelam um cuidado com o que é levado para as ruas. Não sou daqueles que defendem uma sofisticação e/ou eruditização estética do carnaval, porém, acredito que do ponto de vista artístico e musical "lucrávamos" mais quando a indústria era coadjovante da folia.

Podemos então entender que quando se ouve "povo" nesses discursos, lê-se consumidor?Ainda é possível acreditar que o carnaval de Salvador é realmente feito pelo povo, e para o povo?

A TV Bahia investiu muito este ano no slogan: Esse bloco é o seu país. Diante do rumo que a festa tomou, devo concluir que a emissora tem certa dose de razão. Se considerarmos que as tensões, alegrias e dramas, vividos no cotidiano da nossa cidade se concentra nas ruas durante os dias de carnaval podemos sim dar certo crédito ao enunciado.

O que me parece contraditório é a imagem de "bloco" e de "país" que permeia a lente e o discurso desta e da maioria das emissoras que transmitem a festa ao vivo dos circuitos (apenas dois) que as mesmas elegeram. É um festival de abobrinhas, rasgação de seda numa tentativa de velar o que já sabemos desde quando cercaram a invenção de Dodô e Osmar com cordas.

Segue a profecia que se auto-cumpre; quem tem dinheiro, pode ao menos comprar a ilusão da segurança dentro das cordas. Quem não tem e quer "curtir", possui duas alternativas: Ou segura, ou fica fora dela se expremendo entre migalhas de espaço deixado pelos blocos e camarotes. Muita gente e pouco espaço disponível acaba em quê? As emissoras, "artistas", empresários e governos insistem em acreditar que um carnaval da paz é possível nessa configuração. E você? Acredita em acarajé feito sem feijão fradinho?

Não me sinto nada confortável em concordar que na tão proclamada cidade mais negra do país, contraditoriamente, quem sai no prejuízo é justamente essa parcela da população. Qualquer semelhança entre as imagens vistas nas cordas dos trios elétricos com a escravidão não me parece mera coincidência.

Em um cubículo de rua, cordeiros negros agridem a pipoca negra enquanto a polícia negra desce o cacete nos cordeiros e na pipoca negra. E a imprensa que não quer ver,o que é que faz? Entrevista um global no camarote de alguma "estrela" e tudo continua lindo. Já a imprensa que quer ver, faz o quê? Busca uma forma de lucrar com o "espetáculo" da carnificina negra na cidade do Salvador e se veste com um invólucro vagabundo de "solidariedade" a causa para não dar pinta.


Diante de tantas luzes, cores, sabores e desabores, bloco e país se confundem. Nesse despretencioso desabafo devo concluir que um bloco nada mais é que um micro-cosmo do Brasil, ou seja, os "foliões" (uma pequena elite branca e ignorante com alto poder aquisitivo) são os verdadeiros donos da rua (espaço de poder), enquanto cordeiros e pipoca(uma grande massa negra) sonha em gozar das mesmas regalias, ou seja, luta por espaço e igualdade de condições da forma mais ingênua e submissa. É o tenso encontro entre a afro e a euro-descendência no carnaval de Salvador.

Os "vitoriosos" gozam de dentro das cordas e de cima dos camarotes enquanto os "perdedores" sonham em ocupar o lugar dos "vitoriosos", sem considerar quem continuará de fora.

Dominados não se identificam com outros dominados no carnaval de Salvador,ou seja, lógica da dominação definitivamente sacramentada.

Parabéns TV Bahia, você realmente tem razão, infelizmente, esse seu bloco é o meu país...